Riscos ao corpo: o caso "Albert e o artista"
A eficácia de uma imaginação ativa é verificada pela observação do surgimento de sonhos e de sintomas. Ou por uma mudança neles caso já estejam ocorrendo. Se nada acontece ou se nada muda, essa imaginação não foi bem praticada, houve uma falha.
A respeito dos sintomas, eles também podem ser somáticos. O caso "Albert e o artista", que Marie-Louise von Franz analisa em A Imaginação Ativa na Psicologia de C. G. Jung (in: Psicoterapia, editora Vozes), traz exatamente um exemplo disso. Eis o trecho.
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| Atalanta Fugiens Micahel Maier (crédito questionável) |
O caso era o de um artista que havia começado a fazer análise por causa de uma tendência para o alcoolismo e uma sensação geral de desorientação. Uma figura particular de sombra aparecia repetidamente em seus sonhos; vamos chama-la de Albert. Essa figura era um homem esquizoide, altamente inteligente, completamente cínico e amoral, que na verdade há muito havia se suicidado. Como não conseguíamos chegar a um acordo com essa "sombra", aconselhei o artista a tentar ter uma conversa franca com esse Albert interior. Ele se dedicou à tarefa com grande coragem e abertura. Mas Albert com muita esperteza desvirtuava negativamente tudo o que o artista dizia: ele só estava fazendo análise porque tinha medo das consequências do alcoolismo; não prestava para nada, era um covarde que como último recurso estava tentando se salvar através da psicologia, e assim por diante. Seus argumentos eram tão engenhosos e incisivos que, em certo ponto da conversa, o artista se sentiu derrotado. Ele tristemente admitiu que Albert estava certo, e interrompeu a conversa. Pouco tempo depois, teve ataque cardíaco psicogênico. O médico que o atendeu na emergência chegou à conclusão de que ele não tinha nenhum problema orgânico, mas que ainda assim o estado do artista era bastante delicado.
É significativo que o coração, a sede simbólica dos sentimentos, tenha se revoltado. Fiz ver ao artista que, embora ele tivesse sido intelectualmente derrotado por Albert, havia coisas como argumentos do coração que ele, o artista, não havia usado. Ele então retomou sua conversa interior. Albert imediatamente começou a zombar dele: "Então agora sua mentora psicológica lhe deu bons conselhos; mas a ideia não foi sua, foi dela!" E assim por diante. Dessa vez, entretanto, o artista não se deixou derrubar, não arredou pé e acabou levando a melhor. Na noite seguinte, sonhou que Albert havia morrido, e a partir de então essa figura interior, com a qual ele vinha sonhando até esse ponto pelo menos duas vezes por semana, só voltou a aparecer uma única vez em seus sonhos nos anos seguintes, e nessa ocasião ele já não era bem o mesmo Albert e tinha sofrido uma mudança positiva. Ao mesmo tempo, uma nova fase, na minha opinião mais significativa, iniciou-se na vida do artista.
Esse caso nos leva à quarta fase da execução de uma verdadeira imaginação ativa: compromisso.
Até o próximo post!

Estou adorando as postagens do seu blog. Lendo tudo sobre imaginação ativa. Parabéns!
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