Vigotski e a imaginação infantil

                   As possibilidades de agir com liberdade, que surgem na consciência do homem, estão intimamente ligadas à imaginação (Vigotski).


O psicólogo bielo-russo Vigotski (ou Vygotsky, como mencionado no post anterior)* desenvolveu estudos sobre o desenvolvimento das funções humanas superiores (pensamento, linguagem, imaginação, vontade...).

Symons, Molly no Jardim
Na série de conferências publicada como O Desenvolvimento Psicológico da Criança, a imaginação (dentre outros temas) é analisada. Uma definição é proposta e suas relações com o pensamento realista e com a vontade são discutidas.

O psicólogo começa cada uma de suas conferências com um histórico dos estudos sobre determinado tópico, em seguida ele trata das ideias contemporâneas (sempre apontando os pontos fortes e fracos de cada concepção). Considerando o exposto, ele finalmente explana sua concepção sobre o assunto.

Sobre a imaginação, conclui:
(...) a imaginação se caracteriza não por uma melhor conexão com o aspecto emocional, não por um grau menor de consciência, não por um grau menor ou maior de concretude; essas particularidades [afirmadas por outros pesquisadores] também se manifestam nas distintas etapas do desenvolvimento do pensamento.
Define a imaginação como "uma atividade relativamente autônoma da consciência, que se diferencia da cognição imediata da realidade", ou seja, trata-se de um afastamento da realidade mais ou menos voluntário. Esse afastamento é inclusive necessário para o pensamento atinja níveis mais altos de abstração, de forma que pensamento e imaginação sejam funções psíquicas extremamente inter-ligadas.

Com a evidência de algumas pesquisas científicas, ele afirma que tanto o desenvolvimento do pensamento quanto o da imaginação tem apoio na aquisição da linguagem. Um de seus argumentos, algo a que pais, educadores e psicólogos devem ficar atentos, é que o atraso linguístico na infância pode ter como consequência uma capacidade de pensar e de imaginar muito pobres.

Abstrair-se da  realidade também é condição, diz o bielo-russo, para o livre exercício da vontade e a tomada consciente de decisões, já que isso exige a contemplação de possibilidades e a visualização de cenários que (ainda) não existem.

Estas ideias de Vigotski são, em boa parte, compatíveis com o entendimento junguiano. Jung informa que, na criança, as funções superiores estão indiferenciadas, caracterizando a pequena pessoa como germe polivalente. Ou seja, suas potencialidades estão dispostas como instintos a serem desenvolvidos ou realizados de forma mais ou menos refinada, diferenciada, especializada.

Jung concorda que a fantasia e o pensamento infantis estão conectados, e algumas das pesquisas que mais dão suporte à posição de Vigotski foram realizadas no Hospital Psiquiátrico de Zurique, onde o suíço iniciou suas atividades profissionais.

Abraços a todos e boa sorte!

*A controvérsia sobre a grafia do nome bielo-russo deve-se a que seu alfabeto pátrio é o cirílico. A transliteração (passagem de um alfabeto para outro) mais correta parece ser Lev Seminovic Vigotski, mas o uso varia entre as traduções.


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